JOVEM, E ATRASADA !



No início de minha adolescência, recebi a partitura do Concerto da Coroação de Mozart de minha professora, Olga Rizzardo Normanha. Ela tinha planos para mim - grandes planos! Nunca tinha assistido antes a uma apresentação em que houvesse um solista com orquestra. Vejam bem, venho de uma (então) pequena cidade — Campinas que tinha (e ainda tem) uma orquestra!

Vários pianistas vinham se apresentar em Campinas: Guiomar Novaes (foi criança prodígio, estudou com isidore Philippe no Conservatório de Paris, e foi elogiado pelo próprio Claude Debussy !!!), Estelinha Epstein (que estudou com o próprio Arthur Schnabel! ), Bernardo Segall (que mais tarde se tornou ultra famoso nos Estados Unidos). Até Jörg Demus veio para Campinas e foi convidado para visitar nossa casa.

Mas — não, nada de concertos de piano ... Então, ao ver a partitura, fiquei ao mesmo tempo encantada por ser em Ré maior, tendo apenas dois sustenidos… e intrigada com o fato de haver muitas notas outras notas que eu não precisava tocar ... Eu pensei — do alto dos meus onze ou doze anos com uma professora muito zangada para lidar — Ótimo, menos trabalho para mim!

Aprendi o concerto. E muito rapidamente, Dona Olga me anunciou que eu seria a solista da orquestra — fiquei em êxtase! Que ótima maneira de fazer música e compartilhá-la com tantas pessoas! Já naquela época eu via esta oportunidade de tocar com uma orquestra como um grande evento de música de câmara! Não a chamada competição entre solista/maestro/orquestra que presenciei bem mais tarde na minha vida! O Maestro seria o grande Armando Belardi, italiano conhecido por regência de ópera, maestro muito exigente, procedente da cidade de São Paulo - nada menos - da grande capital do Estado!

Então - até agora foi uma longa introdução. Aqui está um vislumbre da Coda: foi um grande sucesso, e me pediram para repeti-lo com o mesmo maestro logo depois, com orquestra diferente pois dessa vez seria no Theatro Municipal de São Paulo em uma transmissão diretamente televisionada! Isso foi realmente incrível!

Aprendi uma lição muito difícil com o Maestro Belardi:

Justo antes do primeiro ensaio, estava eu estudando sonhadoramente minha parte no piano em casa, esperando que minha mãe me levasse para o ensaio. Não tinha relógio e perdi a noção do tempo, o que tantas vezes acontecia enquanto estudava (ainda acontece). Minha mãe rapidamente me tirou dos meus devaneios. Cheguei esbaforida e, assim que subi ao palco, todos os olhos estavam em mim e no Maestro. Ele me deu um discurso severo. Lembro-me de não ter olhado para ele, mas apenas para o teclado - este lindo piano de cauda - pedindo perdão a este instrumento... e querendo desaparecer… para bem longe. O sentimento de vergonha foi muito forte e permeou durante todo o ensaio.

Nunca mais me atrasei para um ensaio!

Para minha sorte, o Maestro Belardi foi um músico e ser humano excepcional. Foi um concerto memorável. E essa relação com a Orquestra Sinfônica Musical de Campinas foi duradoura! Lembro-me que na segunda parte a grande soprano Niza de Castro Tank cantava Carlos Gomes acompanhada de coro que foi preparado por Maestro Mechetti - pai do (hoje Maestro) Fábio Mechetti com quem trabalhei inúmeras vezes. Niza, Maestro Belardi, Maestro Mechetti, Dona Olga e o então secretário de cultura Professor Alexandre dos Santos Ribeiro muito me apoiaram e estavam torcendo por mim. Deixo aqui meus sinceros agradecimentos! E sobretudo: Viva Mozart!


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